O caminho

Passamos a nossa vida toda a tentar prever. Começamos pelas coisas simples, como o fim do livro que estamos a ler (afinal, quem matou a Gi?) ou do filme que começámos a ver na noite de sexta-feira… E arrastamos para questões mais importantes, como o nosso futuro profissional ou o parto da nossa bebé.


Passamos tantas horas, dias e meses da nossa vida a pensar em tudo aquilo que ainda não aconteceu, que damos por nós a achar que é normal quando tentamos prever a ocorrência de tudo… Até de um sismo! Um sismo, um dos acontecimentos mais imprevisíveis que podem acontecer na Terra, do qual não temos nenhum controlo. E, quando sentimos que não controlamos algo, o que fazemos? Controlamos aquilo que conseguimos. Fazemos uma mala de emergência, caso o sismo ocorra. Lemos todos os artigos disponíveis sobre o tema. E achamos que é normal, afinal de contas estamos apenas a ser prevenidos e isso é positivo, certo?


Pergunto-me como é que nasceu a ideia, dentro de nós, de que tentar prever o futuro é o caminho certo neste labirinto a que chamamos de vida. Temos tanta dificuldade em acreditar no destino, que preferimos arranjar formas de controlo, como se isso nos trouxesse algo de benéfico. Não traz. Porque aquilo que mais importa não é controlável, porque se o fosse não seria o mais importante. Não podemos controlar o amor. Não podemos controlar quando o nosso corpo decide abandonar o mundo físico, ou o corpo de alguém que amamos. E então? É exactamente essa a beleza da vida! O imprevisível alimenta a nossa alma, completa-nos. E, mesmo quando o imprevisível traz-nos a maior tristeza do Mundo, traz também o maior ensinamento. Enquanto que a procura obsessiva pelo controlo irá resultar na tardia descoberta de que somos nós a ser controlados por uma força muito superior: o destino.


Não podemos prever se vamos estar na zona de Old Delhi quando um sismo ocorrer, ou se vamos estar na segurança da nossa casa, debaixo de uma mesa suficientemente forte para nos abrigar. Tal como não podemos prever se a nossa bebé de três anos terá um tumor no cérebro (#starsforstevie). E aceitar esse desconhecimento é, sim, o caminho certo neste labirinto. É verdade que pode trazer o pior dos nossos pesadelos, mas pode também trazer a maior felicidade de todas.


Como há um ano atrás a ideia de viver na Índia seria algo impensável, hoje dou por mim a percorrer as ruas de Delhi com um sentimento de pertença e de aceitação. O imprevisível aconteceu e trouxe-me muita felicidade e, acima de tudo, crescimento.


Posto isto, não, não vou tentar prever a ocorrência de um sismo de grande magnitude em Delhi, e muito menos vou preparar uma mala de emergência. Vou apenas focar-me na minha única tarefa: ser feliz. E, se a Terra tremer, posso até tremer com ela, mas recuso-me a tremer antes dela.



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