Ele (quarentena #1)





E lá apareceu ele, apressado e sem pedir licença para entrar, para mudar o mundo que conhecemos. Ele torna-nos transparentes, revela os nossos medos mais profundos, a nossa coragem escondida, o amor que sentimos e nem sempre demonstramos. Ele obriga-nos a pararmos no tempo, congela-nos até, ao mesmo tempo que nos transforma. Ele ajuda-nos a abrir os olhos e a ver o mundo como aquilo que é: pequeno e unido.


Hoje é o primeiro dia, desde que comecei a viver em Delhi, que consigo ouvir os passarinhos na minha varanda, as buzinas desapareceram por completo e consigo contar pelos dedos das mãos as poucas pessoas que vão passando na rua. A realidade alterou-se, e nós temos o poder de, embora confinados a casa, criar a nossa própria realidade. Uma realidade única e positiva.


Ouço muito falar sobre liberdade, sobre como a perdemos quando ele apareceu à porta. Não posso concordar. E digo-o apesar de estar “presa” num país que não é o meu de origem, digo-o apesar de não poder apanhar um voo para ver a minha família. Porquê? Porque estou livre de mais coisas agora do que aquelas que me prendem. Estou livre da pressão interior de ir a algum lado, de ir comprar alguma coisa, até de ir ter com alguém. Estou livre para mostrar, diariamente, o amor que sinto, sem entraves. Estou livre para observar a serenidade com que o meu vizinho lê o jornal, lembrando-me do meu pai. Estou livre para escrever quando quero, ou para parar o relógio quando preciso. Não se enganem, os únicos sem liberdade são aqueles que estão numa cama de hospital, e aqueles que têm alguém que amam nessa mesma cama.


Ele parou o mundo, e trouxe o único medo que é comum à maioria de quase todos: o medo de morrer. O medo de deixar de pertencer àquilo que sempre conhecemos. Ele atinge essa nossa parte, que tentamos esconder com as rotinas, com a azáfama do dia a dia. E, simultaneamente, trouxe com ele um motivo de força maior para realmente pararmos e agradecermos. Agradecermos pelo ar que respiramos, tão simples (e tão importante) quanto isso.


Seja em Portugal ou na Índia, os medos são os mesmos. A força que encontramos é a mesma. A união que criamos é a mesma. Todos queremos a possibilidade de respirar; somos iguais. Países desenvolvidos ou países em desenvolvimento, não importa. Ele mostrou-nos que não importa o dinheiro que temos, apenas como o nosso corpo consegue combate-lo.


E só espero que cada vez mais pessoas consigam fechar-lhe a porta na cara, e inspirar profundamente.


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