Crescimento

Foi necessário deixar Portugal e começar a viver em Delhi para compreender que tudo aquilo que nos define está mais agarrado a nós do que qualquer outra coisa do Mundo. É incrível como conseguimos transportar o que somos de um continente para o outro e, se quisermos, manter-nos exactamente as mesmas pessoas que éramos antes.


Cada vez sinto mais que a mudança pessoal só acontece se nos abrirmos a isso, é tão (mas tão!) fácil criar uma rotina de trabalho – relações pessoais – casa num país tão distinto como a Índia, tal e qual como a rotina que tínhamos antes no nosso ninho de conforto.


Disseram-me, em vários momentos, que ir para a Índia seria a experiência da minha vida, que me iria desafiar dia após dia; e sim, é verdade que todos os dias este país me surpreende, todos os dias vivo situações que antes nunca imaginei que iria passar por elas, mas a verdade? Basta eu não me esforçar em parar os meus dias para sentir e absorver toda a essência do país, que o estar aqui apenas se resumiria a umas linhas bonitas no meu currículo.


O ser humano tem uma capacidade de adaptação que é capaz de ultrapassar a maioria das suas qualidades, pelo que acredito mesmo que a única mudança verdadeira que podemos fazer na nossa vida começa e acaba dentro de nós. Tudo o resto? Habituamo-nos. Torna-se rotina. Perde qualquer magia.


Muitas vezes essa transformação começa quando abrimos os nossos olhos e sempre, mas sempre, o nosso coração. É a forma como observamos o que nos rodeia, como olhamos para as pessoas que passam por nós (que aqui são tantas!) …. A forma como damos um bocadinho de nós a um estranho. É o querer conhecer verdadeiramente as pessoas, e não apenas usar técnicas de “como lidar com pessoas” para criarmos relações vazias. E é isso que vou tentando fazer aqui na Índia, tal e qual como tentava em Portugal.


Por isso, não. Não me digam que ganho experiência de vida por acordar e deitar-me com uma poluição que tapa o Sol e a Lua. Digam-me que ganho experiência de vida quando sorrio perante um grupo de meninos que brincam na rua com cachorros bebés abandonados. Digam-me que ganho experiência de vida quando comunico com gestos e expressões faciais com pessoas que não sabem a minha língua. Digam-me que ganho experiência de vida quando sorrio ao ler textos dos meus alunos sobre o país que gostariam de visitar. Digam-me que ganho experiência de vida quando absorvo toda a vida que passa por mim. Seja na Índia, seja em Portugal, não importa.


O crescimento está dentro de nós.





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